Saturday, July 01, 2006

Era uma vez...


Era uma vez uma história bem pobrezinha, tão pobrezinha que não tinha personagens, não tinha começo, não tinha meio, não tinha fim, nem enredo ela tinha. E para que serve uma história sem enredo?
A pobre da nossa história andava por aí pedindo:
- Um enredo, pelo amor de Deus!
Mas ninguém dá a mínima atenção a uma história sem enredo.
E a historinha sem enredo passava por grandes histórias, cada uma mais orgulhosa do seu enredo.
Uma era a história de um cavaleiro de armadura que atacava até moinhos de vento.
A historinha olhava e dizia:
- Puxa!, isso é que é enredo. Quem dera eu tivesse um enredo assim!
Outra era a história de um médico que virava monstro e de um monstro que virava médico. Tinha também a história de um rei que tinha uma távola redonda. Todas as histórias tinham enredo, menos a nossa.
Um dia, nossa história decidiu, “vou sair pelo mundo e vou encontrar um enredo, custe o que custar”.
Assim, nossa história correu mundo, conheceu todos os lugares, viu cidades imensas, ouviu a queixa das pessoas, o som das trombetas e o barulho dos cascos dos cavalos do rei. Viu bandidos serem enforcados, foi presa, foi solta, foi presa de novo, fugiu.
Assim, os anos se passaram, e assim a nossa história voltou ao ponto de partida. Agora, já era uma velha história, uma história que os pescadores contavam nas noites de lua, as velhas contavam para as crianças dormir, e as pessoas sonhavam quando queriam esquecer da vida.
Um dia, nossa história estava para morrer. Então, ela reuniu em sua volta todas as pequenas anedotas da vizinhança, os episódios mínimos e as piadas sujas e disse:
- Meus amores, antes de partir tenho uma coisa muito importante para contar a vocês, que vão alegrar os homens, fazer as mulheres chorarem e apavorar as crianças.
Já era quase nada, quando conseguiu dizer:
- Era uma vez uma história bem pobrezinha, tão pobrezinha que não tinha personagens, não tinha começo, não tinha meio, não tinha fim, nem enredo ela tinha.
E morreu dizendo:
- Para que serve uma história sem enredo?

Paulo Leminski

Friday, June 30, 2006

Sienta y escribe


Batizo-te, digo! Nestes tempos de experimentações virtuais, de me manter sincrônico com um mundo que me impulsiona ao esquecimento. Tempos de respirar. Tempos de inspirar. Batizo-te com as rosas de Afrodite, com a flecha de Cupido, com o doce engano das palavras de amor. Batizo-te, para o mundo que te cuspirá longe de mim. Batizo-te Parfasis
Confianza
Juan Gelman

Se sienta a la mesa y escribe
"con este poema no tomarás el poder", dice
"con estos versos no harás la Revolución",dice
"ni con miles de versos harás la Revolución", dice

y más: esos versos no han de servirle para
que peones maestros hacheros vivan mejor
coman mejor o él mismo coma viva mejor
ni para enamorar a una le servirán

no ganará plata con ellos
no entrará al cine gratis con ellos
no le darán ropa por ellos
no conseguirá tabaco o vino por ellos
ni papagayos ni bufandas ni barcos
ni toros ni paraguas conseguirá por ellos
si por ellos fuera la lluvia lo mojará
no alcanzará perdón o gracia por ellos

"con este poema no tomarás el poder" dice
"con estos versos no harás la Revolución" dice
"ni con miles de versos harás la Revolución" dice
se sienta a la mesa y escribe.